quinta-feira, 5 de março de 2009

A magia do meu dia

Foi a primeira vez que a vi.
Sorrindo, ela entrou no ônibus, e mesmo com alguns bancos desocupados ao nosso redor, ela resolveu se sentar ao meu lado - talvez para fugir do Sol de 38 graus que fazia essa tarde no Rio de Janeiro - que batia na outra janela.
Eu, com meus fones nos ouvidos, permaneci em minha posição estática atento à minha música. Atento? Creio que não, havia algo nela que prendia minha atenção, talvez suas tatuagens, lindas que cobriam seus ombros, seus peitos, e suas costas, formando uma pequena camisa por cima da pele incrívelmente branca.
Branca também era sua camisa, leve e rendada, uma alsa caía sobre o Buda do seu braço esquerdo. Os óculos escuros ela os levantou e postou em sua cabeça, acima dos cabelos negros cacheados - presos com uma presilha de joaninha -
que não lhe passavam das bochechas rosadas, que contornavam seu belo sorriso.
Torci para que ela não reparasse que eu estava reparando nela, mas ao mesmo tempo eu não ligava se ela me visse, pois para isso ela teria que olhar para mim também, na verdade, não tinha a mínima idéia do que faria quando seus olhos escuros encontrassem os meus, mas eu queria experimentar a sensação.
Pouco depois que consegui disfarçar minha secura sobre seu semblante, ela virou-se delicadamente e me perguntou:
- Sabe quanto é a passagem?
Respondi imediatamente e, logo em seguida estranhei o fato dela não saber o preço da tal passagem, e perguntei:
- Você não é daqui? - Carinhosamente.
- Sou, sim. É que eu não costumo pegar esse ônibus...
Nos viramos para frente e resolvemos seguir a viagem calados. Isso durou pouco, lógico. Quando ela perguntou-me como uma criança feliz e desinibida:
- Tá sangrando? - E mostrou-me seus dentes em um sorriso forçado, para todos eles ficassem a mostra. Eu ri, e respondi com os olhos também sorrindo para ela:
- Não... Deveriam estar?
- Eu fiz uma limpeza dentária, pelo visto funcionou, meu pai agradeçe - E aderiu ao meu riso.
E daí em diante engatamos em uma animada conversa sobre dentes, ela me contou que achava tratamentos dentários muito caros, contei-a que minha mãe era dentista, por isso não sabia dos preços, mas concordei que tudo andava muito caro. Curiosamente, ela me perguntou se eu tinha vontade de seguir a carreira da minha mãe, eu respondi:
- Não, meu lance é Jornalismo. E você, o que faz?
- Cinema - Com um brilho estonteante nos olhos.
- Quem sabe um dia eu não escreva uma matéria sobre um filme dirigido por você?
Meu ponto estava chegando, e algo em mim pedia pra aquele ônibus não chegasse em lugar algum, era muito fácil
ficar o dia inteiro conversando com aquela linda estranha, que eu nem havia ainda me dado o trabalho de perguntar o nome. Enquanto ela falava animadamente sobre uma tal Melánie, de um filme antigo francês, e que esse seria o nome de sua filha, eu perguntei:
- O nome de sua filha eu já sei, o que me falta é o seu.
- Jaqueline.
- Danilo.
E mesmo de toda aquela conversa, como se nos conhecessemos há tempos, ela sorriu e disse:
- Prazer!
Eu me apaixonei nessa hora.

- Pra onde você vai?
- Pro shopping... - Era uma parada depois da minha, ridiculamente perto da minha casa. Perto até demais para que eu sugerisse se podia a acompanhar, ou qualquer coisa que me fizesse ficar mais tempo do lado dela.
- Vou pagar umas contas, e encontrar minha mãe depois - Três é demais, eu mesmo entendi, mesmo não encontrando veracidade em suas palavras, todas me pareciam gentis e melódicas.
- Bem, é aqui que eu fico - Disse com um pesar maior do que eu esperava.
- Moras por aqui?
- A casa amarela de dois andares, aparece lá pra tomar um café - Brinquei, querendo que ela não considerasse isso uma simples piada.
- Ah tá, pode deixar, tchau! - E me deu o sorriso mais caloroso que eu podia esperar.


Deitado em minha cama, eu não conseguia parar de pensar nela. Não fazia meu gênero ir atrás dela, não era nem do meu tipo levar uma conversa dentro de um transporte a mais que três, ou quatro simples palavras. Mas eu tinha um dilema, talvez se eu não o cumprisse, me arrependeria depois para o resto da vida, eu poderia simplismente a encontrar, dar uma desculpa de que precisava comprar alguma coisa, pedisse seu telefone, e-mail, qualquer coisa que me colocasse em contato com sua voz de novo. Não custava nada tentar, se não a encontrasse, voltaria pra casa com a certeza de que pelo menos tentei, e isso tudo se eternizaria como o primeiro encontro perfeito, mas isso não me bastava. Isso não me contentava. Peguei as chaves e fui atrás dela, de seus cachos e tatuagens.
Andei, andei, andei. Entrei em todas as lojas em que ela devia ou não estar. Chequei até por duas vezes algumas. Nada. Nem uma sombra de sua imagem, nem um tom de sua risada.
Não havia mais sentido ficar no shopping, eu iria para casa e concluiria meus afazeres, e tentaria esqueçer daquela tal Jaqueline que cruzou o meu caminho como mágica.
Eu não me conformava com o feio desfecho dessa história, aborreci-me até. O que mudou meu pensamento nessa chateação toda que havia dentro de mim, foi a imagem de uma senhora com os cabelos verdes, isso mesmo, verdes da cor da bandeira nacional, com suas unhas verdes, e sua blusa verde, rindo um riso muito lindo de se ver, percebi que um velhinho exêntrico que estava entregando um pequeno pacotinho em suas mãos também ria, logo após se sentou ao lado da moçoila, puxou o prato de batatas fritas para perto de si, - irreverente não?- e deu-lhe um beijo, ainda sorrindo. Foi como luz na minha escuridão. Meu sorriso foi tão sincero quanto daquele casal feliz.
Levei-me para saída pensando ainda na bonita cena que eu tinha acabado de presenciar, e quando terminei de descer as escadas, a uns 4 metros de mim, eu a vejo, entrando em outro ônibus, perguntando ao motorista aonde ele iria passar, tão perdida quando me conheceu sem saber o preço das passagens. Eu apertei o passo em sua direção, cheguei até a correr, em minha mente o primeiro e único pensamento que eu conseguia pensar era "Achei!". Consegui ler seus lábios quando ela disse, "De novo hein!' e riu lindamente como em todas as outras vezes.
Botei metade do meu corpo dentro do ônibus e disse:
- Seu sobrenome!
- Gomes!
- Por favor, seu orkut, e-mail, msn. Qualquer coisa! - O motorista já estava pedindo uma decisão minha, se entrava ou se saía.
- Me dá o seu que eu te procuro.
- Danilo Souza.
- Deixa comigo!
E a última coisa que eu lembro do dia de hoje, é do seu sorriso. E a única coisa que consegui tirar conclusão é que em 31 minutos, eu sentia que minha vida mudou, de alguma forma que eu não sabia explicar, mas mudou.
E a única coisa que eu sabia, era que aquela mulher ainda faria parte da minha vida, só não sei aonde, mas que a parte seria grande, ah sim, isso seria!

2 comentários:

Anônimo disse...

Você tem sensibilidade de escrita... Gosto disso.
Parabéns pelos textos do blog, e por esse em especial. =)

preservaçãodigital1 disse...

esse texto foi baseado e transformado de um fato quase verídico :x te amo amiga